#31
Olho para o 31 e não penso em nada.
A quinzena em algumas frases
Como é feliz se ver além do horizonte!
Acerca da Literatura
Passei por uma desilusão. Por muito tempo quis ler a saga Em busca do tempo perdido, uma série de sete volumes publicada entre 1913 e 1927, de autoria de Marcel Proust. Neste mês, passando pela biblioteca, encontrei No caminho de Swann (1913), o primeiro volume da saga. Não consigo aproveitar a leitura. É a maior decepção que tive entre os grandes clássicos.
É muito bem escrito, Proust é talentoso em seu trabalho. Mas eu duvido, veementemente, que alguém já tenha lido as sete obras. Com isso, deixo aqui a primeira não indicação desta newsletter.
Contribuição dos leitores
Por Giovana Madalosso
Eu estava dirigindo em uma autoestrada quando vi, no acostamento, um homem correndo com uma cadeira de praia na mão. Aonde o sujeito ia? Não havia nada à vista, além da vegetação. Ele segurava o objeto dobrado, pela haste de metal, sem perder o fôlego. Imediatamente comecei a aventar.
1. Era um ladrão de galinhas que havia entrado em um casebre. Ele até esperava pobreza, mas não tanto. Quem morava ali não tinha um televisor. Nem sequer um rádio ou um par de tênis falsificado. Ele já tinha tido o trabalho de arrombar a porta, recusou-se a sair de mãos abanando. Pegou uma cadeira portátil e, com ela em punho, deu no pé.
2. O rapaz aprendeu num tutorial: quem não tem ferro, malha com gato. E claro que ele não tinha ferro, morava no meio do nada. Fez o que o influenciador ensinou, usar o que se tem em casa. Primeiro treino: correr meia hora com um objeto de dois quilos na mão.
3. Festa de sete anos na casa da Sophia. A mãe da menina propôs dança das cadeiras. A molecada se animou. Ela e o marido juntaram todas as cadeiras que tinham no meio da sala. Não era o suficiente, um ou outro teria que ficar de fora, quem seria? As crianças começaram a brigar entre si; um chorando, era sempre o excluído, o outro argumentando bullying, até a família da Sophia achava ele o pior em tudo? A mãe da menina vira-se para o pai: vai ali no posto e compra uma de praia, tá baratinho.
4. A performance “Homem correndo com cadeira na mão” dialoga com a busca por cadeiras e cargos no corporativismo estendido. Se antes a “rat race” corria só nos centros urbanos, com o trabalho remoto passou a correr em todos os lugares, daí a escolha do artista por disparar no meio do nada, representando a ânsia coletiva por um lugar ao sol na estrada do capitalismo.
5. Sara e Davi acharam que haviam encontrado o espaço perfeito para o seu casamento, o Restaurante Green’s, Km-35, no meio do mato, com vista para o verde. Foi só na hora do Hava Nagila, em que a noiva e o noivo deveriam ser levantados no topo de duas cadeiras, como manda a tradição, que perceberam o peso dos assentos em mogno maciço. Os convidados até conseguiam erguer a noiva, mas o noivo, que pesava 140 quilos mais a madeira, era insustentável, ainda mais porque deveriam sacudi-lo no ritmo da música. O dono do restaurante veio correndo com a solução.
6. O rapaz levou a garota para o alto do morro ver o pôr do sol. Ao chegar lá em cima, ela tentou se controlar, mas não conseguiu. Precisou revelar que tinha TOC, sentia uma tremenda agonia se sentasse no chão. O rapaz, apaixonado, não ia estragar o momento: fica aí de pezinha que já resolvo isso.
7. O município só tinha um cartório para atender a região. A mulher entrou procurando onde se sentar, andava com muita dor no joelho, mas, como sempre, o lugar estava cheio. As cadeiras ocupadas por uma gestante e pelos velhos mais velhos –os velhos mais novos aguardavam em pé. Ela sentiu que não ia aguentar as fisgadas no menisco. Ligou para o filho: ou ele lhe levava uma cadeira ou ela não iria fazer a transferência de imóvel, como ele tanto queria.
De todas as possibilidades aventadas acima, a mais provável é nenhuma. Aprendi, na prática, que a vida sempre dá um baile de criatividade na ficção.
Crônica cotidiana
Percebo que há uma atividade que faço anualmente, sempre no mês de março. É ir a um samba no Bixiga. Desta vez, Jhennyfher e eu combinamos de nos encontrar por lá, para colocar o papo em dia, sambar e beber. Não necessariamente nesta ordem. A missão, entretanto, é não fazer disso uma tarefa anual e ter maior frequência na Rua Treze de Maio.
Algo inédito em minhas idas a este lado da capital foi o after no Agnus, uma esfirraria cujos produtos são realmente fenomenais. Imaginem só saborear uma esfiha de shimeji após alguns litros de cerveja gelada.

Na esteira da quinzena, uma série de eventos sobre os quais não quero me debruçar, mas que devem ser registrados nos autos:
Cortei o cabelo com a mesma profissional de alguns anos, com o perdão de sempre por não identificar sua fisionomia; Luísa retornou ao velho continente a tempo do feriado irlandês de São Patrício; tive sinusite, que tentou me derrubar e quase conseguiu; e dei início às aulas da pós-graduação. Sim, agora quem vos escreve é um mestrando em Ciência Política, também pela Universidade de São Paulo. Creio que não será simples me tirar deste clube ao qual pertenço. Neste primeiro semestre terei as seguintes disciplinas:
Teoria Espacial do Comportamento Político: Aplicações e Métodos
Estado de Bem-Estar: Debates Clássicos e Contemporâneos
Ao passar das semanas, comentarei sobre elas.
É divertido voltar à ativa, reencontrar as boas amizades pelo caminho e retomar uma rotina instigante. Fico contente.
Acerca do cinema
Aos leitores que acompanharam a premiação promovida pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas dos Estados Unidos da América, meus sentimentos. Pelo que fiquei sabendo, venceu a neutralidade política.
